ruas molhadas, céu fechado...
...hoje o sol está de ressaca, as gotas de chuva parecem lágrimas santas cobrindo meu corpo, sinto na boca um gosto pesado de passado, é um sabor cítrico de despedida, estou com os pés encharcados e isso pouco importa, preciso apagar o fogo contido em meus olhos, atravesso as ruas com cuidado,preservando assim o pouco de vida que ainda me resta. Ressoam dentro do meu crânio gargalhadas, atrás do meu globo ocular vultos finos como fumaça, silhuetas de mulheres, sedutoras assombrações me cercam nas primeiras horas da manhã, o lixo acumulado fora e dentro de mim evidência uma limpeza urgente, meu coração geme, meu estômago ronca, minha alma foi esquecida, talvez, no meio de alguma dessas coxas mudas que roçaram minhas costelas, cruzadas em minha espinha desde a adolescência, creio ter sido homem ainda na meninice, por isso, vez em quando me sinto um velho, usando a pele de um jovem, porém, dentro de mim a criança perdida ainda vaga de mãos dadas com Deus, procurando refugio, expelindo drogas, recusando infernos, visitando paraísos. Meus sentidos aguçados deram-me experiência o bastante para raciocinar como predador, seduzir a caça, saciar a fome, lamber os ossos... no reino do qual fujo agora, o quanto se pode acumular de vitimas é tudo o que vale, até notar numa manhã chuvosa, sentado a mesa, esperando o almoço em uma lancheria da cidade, enquanto seus amigos ainda dormem, que estou só e cercado de presas por todos os lados, meus olhos em brasa miram a porta aberta, enquanto um oceano cai lá fora, meu coração geme, meu estômago ronca, e pergunto a mim mesmo “onde diabos deixei minha alma”.
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