o perfume é novo...
... doce, e sua fragrância laranja está em expansão pelo quarto, as cobertas macias e frias em sua superfície, reconheço a matiz da luz pelas persianas, deve ser cedo ainda, não sei quanto tempo dormi, não sei como cheguei, não lembro a cara de quem está ao meu lado, não sei como é a cozinha, não sei como é a sala, sei apenas como é o quarto... médio, branco, espelho frente a os pés da cama ( grande ), penteadeira ( acho que ainda se usa essa expressão ), guarda-roupa com a porta do meio aberta, algumas caixas de sapato pelo chão, duas ou três... pela janela entra um barulho de carros passando lá embaixo, suas costas são bonitas, ombros, pescoço, tudo bem desenhado, uma tatuagem comum na nuca, deslizo pelo lado da cama, carpete, ainda bem... tiro o peso dos meus pés, vou até o outro lado da cama, e fico buscando as lembranças da noite, enquanto miro o rosto de uma desconhecida, tenho a impressão que nasci para amar somente estranhos, tudo acaba quase sempre quando conheço as pessoas, pode parecer pretensão ou que eu esteja indo aos lugares errados, sei lá, não gosto muito de pensar nisso, o meu peito queima e entristece, levanto, vou até o banheiro que fica no quarto, belos azulejos antigos, tudo limpo, calcinha no box, bom! pelos indícios ela parece uma mulher normal, escova rosa, o frasco de perfume com nome estranho e cheiro agradável... lembrei, Helena, cocaína, cerveja, destilados, bairro bomfim , música alta, festa rock, público “GLS”,putz! pelo nosso inicio de história já começo a perder o afeto... se isso fosse uma casa eu saia pela janela, mas quando passo pelo estreito corredor com um pôster dos Stones na parede, abro a porta e olho para o lado de fora, descubro o quinto andar de um prédio,tudo o que posso fazer agora... esperar ela acordar, dar bom dia, pedir que pra abrir a porta, dizer que ligo mais tarde, e com a desculpa que estou atrasado para um almoço com a família,sair e sumir sem perder as esperanças de que o amor aconteça com outra pessoa, sou mais uma vez eu, desafiando os relógios de mais um domingo, sabendo que não terei alegria do seriado dos “Os Trapalhões” ao anoitecer, somente a fantástica mesmice aguardando a segunda-feira.
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