quarta-feira, 6 de agosto de 2008

le premier bonheur du jour

não sou nada...
... mas sempre estou alguma coisa, ciganos não dizem adeus, é debaixo da pele que guardo o verão, resfrio-me no frio da estação, o jazz de divinas notas contorcidas e ritmo esquizofrênico, meus passos enganam meus pés, como vim parar ao lado das suas botas vermelhas, a pouco tempo atrás tentava viajar naquela nuvem azul, andando em linha reta, menos um dia, mais um lugar pra nós dois descansarmos, quanto menos pessoas melhor, quanto menos barulho melhor, retirados das pistas de dança, pegaremos filmes de grandes diretores, mesmo com pouca luz essa noite será bem melhor, quando o amanhã chegar, encontrará nossas falsas peles aquecendo o chão, meu coração de leão só atende sua voz felina. Brinquedos de plástico estão perdidos pelo parque, vamos procurar também, mendigos sonham, um louco canta, tem uma porção de mim voando, outra rolando pelo chão, sua presença me sustenta, a luz do dia lhe deixa ainda mais linda, quase uma alucinação, ouço o pássaro que passeia pela grama, e o doce movimento do céu, até a noite chegar será assim, o sono tem sotaque francês, ele buscou minhas idéias ontem, mas a louça não sabe o caminho da pia, giro,giro, e volto a estar com você, quanta carne sua existe em meus pensamentos, comprei um óculos pra não queimar meus olhos na poluição da cidade, mesmo assim eu não uso, prefiro manter as pupilas alertas, minha primeira alegria venha me visitar algum dia desses, e não se zangue com minha demora, se isso lhe importa, se isso lhe importa, derreta pela última vez comigo, tudo o que escrevo é muito simples, comparado aquilo que não consigo dizer, palavras são símbolos , você as decifra ou elas decifram você, é realmente um processo tão encantador, quanto seu corpo que é um vôo dentro, e fora de minhas mãos, no repouso da fuga o medo da dor, acabamos sendo outros e não nós mesmos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

pesadelos a flor da pele ou noite de verão

meia-noite e vinte e sete...
... e o sono não vem, tento não lembrar dos pesadelos, sob os lençóis regressões de um menino muito fechado, talvez a chave tenha sido perdida, e não haja mais ninguém jogando limpo, porém, peixes não são dóceis, escapam fácil, muito, muito fácil, engolindo anzóis, sigo contra a maré, no fundo do oceano a sereia e todos seus marujos, sobraram apenas os esqueletos, corais se formam no ossos e atraem novos pescadores, ela acordou-me com seu canto suicida ontem de madrugada, não havia ninguém pra fechar meus olhos depois, fiquei confuso, o incenso ainda aceso afastava os maus espíritos, enquanto o passado enfiava suas mãos geladas por dentro da minha camisa, problemas, problemas, existem histórias que gostaria de cantar, meus cabelos ainda não seacram, estou perdido no tempo-espaço, o sol tem estado muito fraco, raquítico, semana passada ele alimentou a terra tão pouco, observei que você não lembrava o que tinha me dito, apenas tomava seus comprimidos, só consigo ler seus lábios em braile, fique longe dos problemas, estou me despedindo, esse foi o último pesadelo que tive contigo, minha amiga disse que posso aparecer a qualquer hora do dia ou da noite, ela terá uma vela pra clarear meu caminho, reze toda vez que acontecer isso, seu amor me quer por perto, sempre há um perdão novo saindo de sua goela, seus toques sempre são espertos, ela me disse pra eu não me apegar a nada que seja feito de concreto, e pra não ter dividas com meu coração, em outro momento alguém que já me abandonou, estende sua mão, eu ainda tenho medo, eu ainda tenho medo, seus dedos podem me soltar novamente, ela escolhe todos e ninguém recusa sua companhia, viciante como heroína, vou manter meus braços de ouro afastado de seu corpo, tenho nadado, tenho seguido, tenho estado, nascido e morrido, mas não tenho pertencido a mais ninguém que me ofereça apenas metade dos seus sentidos, nem mesmo amigos, são uma e quatro da madrugada e ainda estou acordado por causa disso.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Joana Blue

abaixo da cruz seu colo não me parece pecado...

...assemelha-se muito mais a um paraíso encantado, acima da cruz seus olhos de tão fortes parecem que me vêem, como ontem me viram, como ontem eu os vi cintilantes mesmo no escuro, enquanto somávamos palavras, bocas e energia, e os segundos passavam desesperadamente rumo ao final das horas. No movimento dos carros, na translação dos astros, nas ruas desertas de domingo, na luz amarela dos postes, no vento frio da noite, em tudo havia um querer não acontecer, um querer não passar, um querer ficar por ali, dentro do seu carro, ao seu lado, eu quis permanecer, e seguir lhe descobrindo com minhas mãos e devorando seus lábios. Ontem a noite, não houve escuridão em mim que resistisse ao brilho celeste da sua vinda, e tem sido assim toda vez que sua alma conduz seu corpo até minha frente, ou quando sua força se projeta dentro de mim, milhares de imagens bem melhores, bem maiores que meus pensamentos, invadem meus momentos. Sinto-me frágil, indefeso, porém, extremamente forte entre seus braços, e cada vez que seu suspiro cruza meu ouvido, esqueço das leis da física e vôo no céu da sua boca , só então compreendo e passo a acreditar no milagre dos seus lindos e imensos olhos azuis, minha linda Joana Blue.


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

pra te deixar com um sorriso no canto da boca

tenho escrito compulsivamente...
...tentando livrar-me de meus próprios pensamentos, talvez reencontrá-los de uma forma estática presos ao papel, de alguma maneira me conforte, me liberte, pois sei que o entendimento alheio vai desgastar as palavras, corroer a idéia central, julgar o personagem, até esquecer das coisas sem sentido que aparentemente escrevo, mas no meio desse realismo fantástico estão minhas vísceras expostas, minha alma explicita, fico assim, distraindo o tempo, hipnotizado pelo som da chuva, lembrando do sol que essa semana fez visita de médico, com sua boca ainda queimando na minha, feito bebida forte, seu corpo retorcido feito nota solta de jazz, fechada nas palmas de minha mão, isso é fantástico, ou seria realismo, não tem problema eu só escrevo pra me livrar dessa maldição de eternizar os dias pra novamente esquecê-los, meus textos são um arranhão de lobisomem, alguns estraçalham sua garganta, outros lembram o lado humano e tornam-se aberrações inofensivas, como uma canção francesa que de tanto amor chega a desfigurar-se, jurando sua devoção no leito do último suspiro, um amor brega, igual ao do fronha ( um sujeito que morava perto da minha casa ) por aquela puta gorda e feia, nossa!, vai entender o que leva alguém a amar outro alguém tanto assim, ainda mais sendo um alguém como ela, puta gorda e feia, enfim, ele tomou um litro de whisky "vagabundo", subiu no banquinho e pulou com a corda no pescoço, o fronha amava mais a puta gorda e feia, mais do que a si, mais do que a filha dele, não que putas gordas e feias não devam ser amadas, só acho que ninguém deve morrer por amor, deve-se viver por amor, isso é realismo, ou isso é fantástico, e no copo que ele bebeu com a morte as moscas não pousaram, porém o corpo dele foi encontrado sete dias depois, putrefato, com a língua arrastando no chão, roxo, rosa, grená e branco decomposição, essas eram as cores que vibravam nele, eu fotografei na memória, fotografei as veias, os vasos capilares capilares espalmadas sob a pele dele, e as hemorragias ainda coagulavam, ele ainda estava quente, vivo, apenas apodrecendo, esqueceu de acordar, de levantar, de deitar, de dormir, de sofrer, de sorrir, fez com que tudo parasse, agora, sua alma é feita de morfina, sem precisar pagar para ver, sem precisar pagar para fazer, sem precisar pagar para entrar, sair sem ser visto, seu espectro ainda persegue e ama aquela puta gorda e feia, entendeu por que te prendo no labirinto do realismo fantástico, é só pra dizer que se ele continuou amando mesmo depois de morrer, então por que ele não continuou vivendo, afinal, eu poderia lhe apresentar putas bem melhores para se amar.