domingo, 10 de março de 2013
Cidade Maravilhosa
Dezembro de 2008...
...não recordo o horário nem o dia, só sei que ao sair do Galeão tudo era novidade. O cheiro morto da baia de Guanabara, as favelas a cima, ao lado, e por todas as partes, pela linha vermelha os containers, os postos de policia e as viaturas passando com metralhadoras para fora de suas janelas, evidenciando o estado de alerta em que vive a cidade, as ruas abandonadas do centro, e o intenso movimento da Av. Rio Branco que só descansa aos domingos, e durante o carnaval é passarela para o Cordão do Bola Preta, onde um mar de gente desliza passo a passo de formiguinha, untados de suor, cerveja e desejo. O bairro do Flamengo de um lado verde, de outro uma cidade, aliás, quase todo o Rio de Janeiro é assim, o verde dentro da cidade, ou a cidade dentro do verde, por onde trafegam livremente marginais, mendigos, trabalhadores, turistas de todo mundo, camelos, guardas municipais e os estúpidos choques de ordem, loucos, artistas e poetas, com seus olhos esperançosos em busca do Eldorado. Pelas ruas só não circulam, quem mais deveria circular, os governantes desse imenso Reino de Areia, que a cada chuva de Janeiro desmorona, soterra favelas, inunda bairros, arrasta barracos, casas, animais, mobília e famílias para dentro do seu mar de lama e corrupção.
O descaso com os moradores e o prazer em receber os turistas, a sede pelo o poder que todos os dias leva milhares de almas para o inferno, sede pelo poder que enegrece, matando muito mais neurônios do que qualquer droga oferecida em suas milhares de bocas de fumo, de pó, de crack. É quase impossível vencer esse inimigo invisível que a mídia faz questão de alimentar todos os dias com dor e fantasia, esse espirito de exu que não tira folga, que trabalha arduamente sedando o espirito daquele sonho Parisiense, daquela capital que se perdeu pela Lapa, em copos de cerveja , cantoria , samba e cachaça, aquela capital nacional que virou a mãe pedinte de seios caídos e milhares de filhos, que se sem comida aprenderam a roubar logo cedo para sobreviverem, não por prazer, como fazem seus prefeitos, vereadores e governadores, digo governadores pois aqui manda quem tem poder, quem pode sustentar a fome roncante nas tripas de seus parasitas engravatados, que assinam papéis, que selam pactos, que estendem a lona desse grande circo e contratam seus mágicos, engolidores de espada, homens bala e mulheres barbadas. E seguindo a melodia da flauta doce do encantador de ratos, recém-nascidos tem suas vidas plugadas ao um sonho de consumirem mercedes, lamborguines, ferraris , de passear pela orla refletindo ouro, comendo camarão , bebendo champanhe, espiando por cima dos ombros ,com olhos torcidos e narizes empinados, as famílias de afro- brasileiros espalhadas com suas comidas e bebidas, dividindo espaço com anabolizados, plastificados, jogos de altinhas. Enquanto o mar sem saber de nada arrasta o lixo para dentro de suas marés, diariamente, sucessivamente, como um pai que não se cansa de esconder os erros dos filhos. Depois de quinze dias, você acostuma-se com essa nova ordem controlada pelo caos.
No entanto, creio que muitos não sobreviveriam sem esse jeitinho brasileiro, sem esse cheiro de urina, sem ver a sofreguidão nos olhos dos catadores de lixo, por incrível que pareça alguns se sentem bem negociando almas, capitalizando a natureza, traficando escravos, espalhando o gás da liturgia com seus jatinhos particulares, para eles é interessante os royalties do petróleo, o sangue escorrendo nas calçadas, os corpos crivados de bala, as grandes e as crianças que morrem de fome, eles se alimentam dessa desgraça,isso lhes traz alegria. Seus pobres corações batem infinitamente confortados em saber que a maioria é manipulável, e que a cada segundo atracam transatlânticos, pousam aeronaves, estacionam ônibus, trazendo carne nova, bilhões em dinheiro, litros de suor, raças de todos os tipos prontos para servirem de oferenda e que serão facialmente seduzidos pelos cenários paradisíacos, pelo sexo fácil, pela tele entrega de entorpecentes.
Os deuses das sombras sabem que sempre haverá um lugar seguro para eles dentro de seus estúdios de televisão, na noticia comprada do jornal das oito, na maquiagem bem feita de seus atores. Que terão acesso fácil à maioria das casas, em todas as classes através de telas de alta definição, ou em ultrapassados aparelhos de televisão, pelas ondas sonoras do rádio, pelo falso sermão que ecoa na cova rasa de suas igrejas. Entretanto, podemos ver, além disso, além do que eles nos mostram, querer uma refeição mais justa além dos restos que eles nos servem, podemos sambar beber, fumar, cheirar, orar, almejar o bem do próximo, construir um lugar mais justo, mais limpo, mais seguro, porém, para isso precisamos cantar, decodificar as mensagens subliminares das canções contra a ditadura e expor suas palavras em pensamentos claros, que todos entendam, precisamos mobilizar a nós mesmos, não podem comprar nosso silêncio, nem barganharmos nossas almas, somos filhos da terra e como nossa terra imortais, temos de ser menos egoístas e pensar nas gerações futuras, e de como seria bom ver o morro realmente iluminado homogeneamente por mentes tão pensantes quanto as da burguesia, precisamos deixar de vermos nossos irmãos como adversários e em grandes mutirões caminharmos lado a lado reflorestando de energia positiva esse paraíso natural que é o Rio de Janeiro, para que ele volte a ser realmente uma cidade maravilhosa, unam-se burgueses bem intencionados, proletariados, unam-se aos animais e ao espirito da mãe natureza mais uma vez e façam seu caminho de luz e de paz.
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